A Globo prepara mais uma sequência em dramaturgia, dessa vez com a continuidade de “Avenida Brasil” (2012), atual cartaz em “Vale A Pena Ver de Novo”. Quinze anos depois da primeira produção, a sociedade mudou completamente. Inclusive no modo de consumir dramaturgia. Será que essa empreitada vai dar certo?
O público será reinserido no cotidiano do Divino FC, clube de futebol suburbano que tenta viver seus dias de glória dentro das quatro linhas. Mas, o ponto central da história não é o esporte mais popular do mundo. Toda uma comunidade cresce no entorno do time, casas, comércios e outros elementos tem a ver com o clube.
De vilã a heroína?
Carmen Lúcia Moreira de Araújo termina a primeira história presa. A personagem vivida por Adriana Esteves era a grande vilã do enredo, com requintes de crueldade. Um dos tipos mais malvados da década. Depois de sair da cadeia, ela quer se mostrar uma pessoa refeita, regenerada e que trabalha em prol da sociedade.
Talvez, esse seja o grande jogo de dualidade da história. João Emanuel Carneiro já apresentou dualidades de maneira peculiar, basta recordar que o jogo duplo era o grande fio condutor de “A Favorita” (2008), sua produção anterior que teve acontecimentos antecipados para ajudar numa virada de audiência.
Araújo teria se transformado em uma pessoa melhor, mais humana e digna do perdão. Ela se aproxima novamente da família de Jorge Araújo, mais conhecido como Tufão (Murilo Benício) para tentar refazer a vida.
Novos núcleos e amante da vilã
O universo de 2027 será completamente diferente da obra original. Em 2012, o país vivia seu apogeu. Ascenção econômica, felicidade geral e um sentimento genuíno de que tudo poderia, sim, dar certo. Um otimismo quase parecido com o de Candinho (Sérgio Guizé) em “Eta Mundo Bom” (2016).
Agora, a novela vai ser versada em outras bases. Milícia, vício em apostas. A grande cartada da história vai mesmo ser o jogo de duas faces da personagem que potencialmente é a anti heroína.
Em sua nova jornada, a personagem terá um outro amante. Já que Max (Marcello Novaes) morreu na primeira novela. O próximo “boy toy” da personagem já foi tema de um texto e pode ser visto ao clicar aqui
Globo se perde entre remakes e continuações
O canal líder de audiência vive uma de suas maiores crises de criatividade das últimas décadas. Em pouco tempo, o canal fez uma quantidade incontável de releituras e sequências. E essa é para o principal horário de novelas. Algo está errado? O público quer conforto e saudosismo? Ou a emissora se mostra acomodada?
Em tempos onde desenvolvimento e criatividade parecem ter sido atirados pela janela, pelo menos se tem um alento na grade. O modo como se desenvolve e estrutura “Por Você”, atual novela das sete, nos faz recordar os melhores momentos da televisão brasileira. Definitivamente, regredimos muito em catorze anos.
Respiros como esse são necessários e cada vez mais raros, dentro de uma dramaturgia pasteurizada, limitada e até capacitista em determinado ponto, como aconteceu com a protagonista de “Todas As Flores” (2022), Maíra (Sophie Charlotte) recuperou parte da visão e usou isso a seu favor, para concluir sua vingança contra as vilãs daquele universo.
Em outro tipo de abordagem, a novela da RECORD “Vitória” (2014), manteve uma personagem central PCD de “fio a pavio”, como diriam os mais antigos. Arthur (Bruno Ferrari) era ressentido, triste e por vezes malvado. E ele não precisou “voltar a andar” para demonstrar toda a sua potencialidade, como uma personagem de múltiplas facetas bem escrita por Cristiane Fridmann e brilhantemente defendida pelo galã.
Resumidamente, em dramaturgia qualquer deficiência deve ser usada como recurso de narrativa e não como uma simples punição. Ou pior, construção simplória de uma “cura milagrosa” que pode na vida real não existir. A ficção aceita tudo, mas ter alguma base fática ajuda muito na verossimilhança.
A liberdade criativa, tão urgente, parece ter sido sufocada e sequestrada, em nome de produções em série de algo genérico e que não fala efetivamente com quem ama dramaturgia. Talvez, quem pensa as novelas atuais sequer deve gostar desse tipo de história.
Enquanto isso, a vida segue, como diria o antigo analista da então RBS TV, Paulo Alceu.


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