As duas janelas do horário eleitoral gratuito, cada uma com 25 minutos no ar, podem contaminar a audiência da televisão aberta e fazer com que parte do público não retome o seu hábito depois desse bloco de programação que interrompe o fluxo das emissoras. Seja com novela, jornalismo, entretenimento ou qualquer outro produto que esteja em cartaz tanto na faixa da tarde quanto no horário nobre.
Quem pode ocupar esse espaço são as plataformas de streaming, que a depender do pacote assinado não tem intervalos comerciais, obrigatoriedade de inserções partidárias ou qualquer coisa que o valha. Na verdade, a versão gratuita do YouTube já se assemelha mais ao expediente adotado pelas grandes redes, especialmente com a inserção de anúncio em meio a vídeos longos demais.
As próprias plataformas se ajustaram e hoje oferecem pacotes em valores menores, justamente com a inserção de propagandas. Ou mesmo os famosos e celebrados canais FAST, que tem inserções como essas.
O modo de consumo vai mudar de novo
A maneira como se consome conteúdo de mídia está em evidente e constante mudança, desde a virada do século. O site Notícias da TV fez a provocação inicial, que me levou a escrever esse texto.
O movimento de fuga do público em relação ao horário eleitoral para outras mídias pode ser considerado natural. Essa mudança de comportamento pode ter relação também com o baixo interesse de parte do público pelo formato da propaganda eleitoral, embora isso não signifique necessariamente desinteresse pela política em si.
Esse público pode demorar para voltar a consumir televisão aberta.
Hoje, a maior audiência do dia é “Quem Ama Cuida”, novela das nove. Isso não é novidade, porque sempre foi o espaço de dramaturgia mais visto do país. O que se discute aqui é o patamar que a produção tem. Além das diversas formas de se acompanhar, seja com matérias sobre o assunto em sites especializados, ou recortes da própria Globo, nas mídias sociais. Até mesmo a inteligência artificial, com resumos falsos, prometendo mortes que nunca se concretizam, ou grandes viradas, que escandalizariam o público. Ou, a principal faixa de novelas da RECORD, que não atinge os mesmos índices de dez ou vinte anos antes de hoje.
As principais atrações da televisão brasileira encolheram. Não no sentido literal, mas hoje esses programas estão disponíveis a qualquer tempo. Não é mais necessário ficar no sofá, ou na cozinha esperando o beijo apaixonado do grande casal romântico da novela. Esse tipo de conteúdo e muitos outros, podem ser assistidos, lidos e ouvidos em dispositivos móveis.
Então, a televisão vai morrer?
O conceito de televisão que tínhamos no começo dos anos 2000 já morreu. A essência do veículo permanece viva. O rádio, por exemplo, conseguiu também se adaptar. Perdeu o protagonismo, mas está ali com suas características e formas de entrar na rotina das pessoas. O jornal impresso, também não. Porque, ele passou por um outro tipo de transformação.
A rapidez, hoje, não combina com ele. É melhor esperar que uma informação se consolide, seja confirmada e só então desenvolver algo para falar sobre, do que correr o risco de uma “barrigada”.
A televisão dos anos 2000 não faz mais sentido hoje. O modo como a sociedade evoluiu, ou involuiu nos trouxe até aqui. Muitas outras questões precisam ser discutidas, ainda mais nesse prisma da produção de conteúdo, principalmente no entretenimento.
A rapidez mata qualquer profundidade
A rapidez de cortes em mídias socias mata a profundidade, o bom argumento. A troca de ideias, o espaço para divergências saudáveis. Estamos inseridos em bolhas, que são extremamente confortáveis. Nada de fora dela te atinge, ou conversa com você. Talvez, esse seja o problema.
O NTVB é um site segmentado. Mas, evoluímos com o tempo. Depois de estudos, horas de reflexão e muita discussão, mudamos o nosso jeito de entregar notícias. Estamos em um nicho, onde escândalos, polêmicas e qualquer coisa “mais explosiva”, aumenta a taxa de cliques e retenção. Mas, é necessário parar. Olhar o que se faz e como se faz, uma boa análise de mídia não sai pronta em dois minutos.
O clique fácil pode trazer resultado imediato, mas não necessariamente constrói público recorrente. Esse é o nosso grande ponto de virada.
A preocupação das emissoras é certa
O baralho das audiências será misturado de novo. Com a chegada do horário eleitoral, haverá um novo pico de consumo das plataformas de streaming, assim como aconteceu no começo da década, por outro motivo. Agora, a gente precisa analisar, quem está pronto, de fato, para receber do horário eleitoral. E indo mais afundo: Como os programas vão te convencer a voltar, depois que os candidatos terminarem de falar.
Além dos cinquenta minutos diários, divididos em dois blocos, os programas terão novas janelas comerciais, apenas para despejar as inserções partidárias. Ao todo, 70 minutos devem compor essa linha com inserções políticas.
Esse talvez seja o grande desafio. Muito maior do que os problemas na coleta de dados em tempo real, que já foi assunto por aqui. A corrida por chamar a atenção de quem consome televisão da maneira tradicional vai ser das mais interessantes. E estaremos aqui, para acompanhar esse legítimo “balé da mídia”.
No fim, quem tem razão?


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